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Reunião ~You Must Fight Against Yourself~

<sábado, 13 de dezembro de 2008 

Era quarta-feira, umas dez para as oito da noite.

Noite tranqüila, nada de bêbados cantando na calçada (sem bem que era meio cedo para encher a cara, mas, pensando bem, existe uma hora ideal para isso?), nada de crianças brincando, gritando e xingando na rua (não necessariamente nessa mesma ordem), nada pedintes... Bom, “pedindo” coisas de porta em porta (me parece que não existe mais um “horário de serviço” para eles, aparecem a qualquer hora agora). Somente eu e meu computador, jogando uma amistosa partida de “paciência” (não tão amistosa assim, já era a terceira vez que ele me “vencia”), quando ouvi uma batida na porta.

Eu a abri.

- Ahh... Oi. Cheguei cedo, né?

- Não sei... Você é...?

- O que? Já se esqueceu de mim? Sou o “você” que não largou a garota da sua vida.

- Ah, você... Nossa, quanto tempo! Mas então... O que você fez da vida? Da última vez que te vi, você ficou com a garota que eu deixei...

- Pois é. Continuamos juntos... Por ela, arranjei um emprego numa loja, fui para a faculdade. Sou formado em administração, trabalho numa multinacional...

- Uau. Pela aliança, se casou com ela, certo? “Felizes para sempre”?

- Hm... Não diria bem isso... É que... Você sabe. Não fomos feitos para isso.

- Eu sei. Por isso eu saí fora.

- Não só isso... Digo, a vida de “escritório”.

- É. É mesmo. Não sei como você agüenta. Filhos?

- Um casal. Muito bonitos, puxaram a mãe.

- Ainda bem!

Mais batidas na porta.

- ALÔ-Ô? Alguém aí?

Abri a porta.

- Cheguei cedo? No horário? Ah, droga, “ele” já chegou...

- Deixa eu adivinhar: Pela barba a fazer, pelo cabelo desgrenhado, roupa desleixada... Não, não faço a menor idéia...

- Sou o “você” que largou tudo e fugiu de casa.

- Oh, minha nossa... Er... Digo, “nossa, que legal”...

- Hei, não julgue o livro pela capa! Apesar da minha aparência (e você deveria ser o primeiro a lembrar que nós não ligamos para nossa aparência)...

- Eu ligo!

- Quieto, almofadinha! De qualquer forma, apesar disso, sou até que bem sucedido!

- Certo...

- Não, sério! Depois que fugi, decidi recomeçar minha vida do zero: Fui para uma cidade no interior. Com o dinheiro que eu tinha (que não era muito) arranjei um lugar para ficar. Comecei a trabalhar num restaurante, como garçom. Hoje, sou dono do restaurante!

- Puxa... (Espero que você não ande desse jeito no restaurante)

- Claro que não! Ok, posso não ser “tão bem sucedido” como o senhor “trampo numa multi” ali...

- Vai ficar pegando no meu pé?

- ... Mas sou bem feliz! Tenho até uma namorada!

- Mas... E a família? Papai, mamãe... Você os vê?

- Bom... Desde que fugi, nunca mais falei com eles. Eu... Ok, sendo honesto, eu sinto saudade deles. Mas... Eu fugi porque sempre me senti uma falha... Acho que não tenho coragem de encará-los porque... Porque...

- Porque você AINDA se sente uma falha. Ah, qualé? Eu já superei isso faz tempo!

- Mas eu, não!

- Você ainda se prende a pensamentos retrógrados muito infantis...

- Sério, mauricinho, se você continuar falando...

- (Nem acredito que vou dizer isso, mas) Ele tem razão. Você tem que deixar isso para trás. Continuar fugindo só vai...

Mais batidas.

- Já tô indo, já tô indo...

- Desculpa o atraso... Teve uns incidentes imprevistos (óbvio, afinal, se fossem previstos, não seriam “incidentes”).

- Ok, agora eu já vi de tudo... Você é o “eu” que...

- ... que nem fugiu nem estudou, ao invés disso, se tornou policial.

- Ok, impressionado. Sério. Óbvio, isso passou pela minha cabeça, mas...

- ... você não quis ir contra seus pais. Eu entendo, normal. Quase passou pela minha cabeça desistir também. Mas depois eles aceitaram, de boa!

- Então, seu coxinha, como é a sua vida?

- Se me chamar de “coxinha” de novo, eu faço uma blitz na sua casa e “acho” material de pedofilia...

- Ok, ok, deixa ele para lá. Conte-me sua história.

- Contra o gosto da mina família, eu entrei para a policia. Já tô na força faz uns anos. Nada de mais.

- Legal. O que você faz, exatamente? Dá porrada em bandido...

- Já bati em um monte de pessoas, subornei e fui subornado...

- Nossa, que orgulho...

- Olha aqui, engomadinho, o que eu faço não é bonito. Mas é o que deve ser feito para que eu e minha família possamos sobreviver.

- Eita, você também é casado? E como assim, “sobreviver”? Você não é feliz? Achei que...

- É, ser “meganha” não é a moleza que todos nós imaginávamos. Tem muita coisa feia que temos que fingir que não vemos. Estar do lado da lei não significa estar do lado certo. E tenho três moleques e minha mulher, que reclama que nunca estou em casa, para cuidar.

- Acho que estou mais surpreso pela frase ser tão coesa e profunda do que por você ter uma familia.

- Só porque eu não freqüentei uma faculdade, não quer dizer que eu seja estúpido.

- Eu ia dizer isso ao senhor “administrador”!

- E você, moleque? O que você fez da vida?

- Moleque? Eu tenho a sua idade!

- Força do hábito.

- Eu... Segui a direção oposta da de vocês.

- Nossa. Que específico. E por que nos chamou aqui?

- Sei lá. Acho que eu queria saber como vocês se saíram...

- Ótimo... Só isso? São oito e quinze e não tô afim de voltar para a casa agora (eu moro perto de Jundiaí, sabiam?).

- Bom... Podemos... Jogar Poker?

- Hm... Pode ser.

- Para mim, tá bom.

- Ok, eu distribuo as cartas!

E foi assim que começou a tradicional "Noite de Poker na Segunda Quarta do Mês”.


Vociferado por Shimura-Aniki
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