Aniversários. ODEIO aniversários. Não só os meus, mas o dos outros também. Não costumo comprar nada, mas meu amigo nunca recebe presentes. Sempre esquecem que é aniversário dele. Decidi levá-lo para fazer compras, não sabia o que comprar para ele.
- E aí? Já decidiu o que vai querer?
- Eu queria Paz, Alegria, Harmonia... Que os povos se entendessem. Que as pessoas...
- Não, não, eu quis dizer presente.
- Mas esse seria o melhor presente que...
- Eu quis dizer “algo que eu possa comprar”.
- Ah...
- E aí?
- Não sei.
- Qualquer coisa. Desde que não seja muito caro. Sei lá, uma camiseta? Uma calça? Um DVD? Uns bonequinhos dos G.I. Joe?
- Ainda fabricam G.I. Joe? Por que é tão difícil que as pessoas se entendam? É pedir demais que elas tenham paz por, sei lá, pelo menos um dia??
- ‘sigh’ Olha, cara, acho louvável seu esforço, mas... Você já viu como ficam as ruas em dia de chuva?
- Molhadas? O que você quer dizer?
- Não “as ruas”. Digo, olha para as calçadas. Você verá pessoas de guarda-chuva debaixo de toldos, forçando as pessoas sem guarda-chuva a passarem fora do toldo...
- Certo...
- Entenda: Essa é a natureza humana. As pessoas pensam “não quero me molhar” e se protegem, com guarda-chuvas e toldos. Mas essa proteção impede que outras pessoas se protejam.
- Você quer dizer que a natureza humana é ser egoísta?
- Mais ou menos. Mas não só isso.
- Mas nem todos são assim.
- Claro, há pessoas que passam fora dos toldos. O que seria do azul se todos gostassem de ameixa?
- O quê?
- Que tal um boné? Ou um chaveiro? Um tênis (desde que não seja de marca, claro)?
- Eu podia ir falar com as pessoas...
- Não acho que elas terão bons conselhos sobre o que comprar... Principalmente vendedores.
- Não! Digo, sobre o que estávamos falando antes...
- Sobre a chuva? O que, vai fazer o “Sermão da Chuva”? Os “10 Mandamentos nos Dias de Chuva”??
- NÃO! Estava falando sobre o que eu quero...
- Ah... Bom, você seria morto bem antes do que da última vez...
- Mas o povo era ignorante no passado...
- Você acha que mudou??
- Bom, ninguém mais é crucificado...
- Não, são mortas a tiro. Ou em cadeiras elétricas. Ou enforcadas.
- Criminosos.
- Quem decide quem deve morrer ou viver? Você devia saber disso melhor do que ninguém.
- Ok, ok... Você disse “não só isso”. Por quê?
- Ok, vamos supor que você volte. Haverá quem te siga e haverá aqueles que estarão contra você. Não só os que têm uma religião que não acredita em você, mas aqueles que acreditam em você, mas estão... ligeiramente enganados. Veja bem: Todos os grandes nomes, Gandhi, Luther King, Dalai Lama... Só foram reconhecidos depois de morrerem.
- Dalai Lama está vivo, sabe...?
- Não por muito tempo.
- Certo, certo. Mas qual o sentido disso tudo? Digo, de você me levar para fazer compras? Você sabe que eu nem nasci nesse dia, exatamente...
- É, eu sei, mas a data em que você nasceu usava um calendário diferente. Aposto que nem você sabe quando é, usando nosso calendário atual.
- Lógico que sei!
- Quando?
- ... Depois dos 30 anos, aniversários não tem mais importância, você sabe...
- Que desculpa esfarrapada! Eu diria que aniversários não tem importância depois dos 20!
- Né?
- Já escolheu ou não?
- Estava pensando em levar essa camisa da Onbongo...
- Por quê??
- Sei lá. Ela parece popular ultimamente. Imagino que se eu “for com a modinha”, talvez eu entenda meu povo...
- Boa sorte. Você vai precisar...
Assim, comprei a camisa e me despedi dele... E agradecendo por não termos passado numa loja de CDs e ele querer se “socializar” ouvindo funk carioca...