E os anos foram passando. E com eles vieram Flight Simulator, The Sims e afins. O disco rígido parecia não comportar mais tantos arquivos (e tralhas), então mais um disco foi providenciado, com inimagináveis 30 GB. Pronto. Estávamos livres de back-ups em CDs de 700 MB cada pelo resto da vida.
Mas então chegou a tão falada internet banda larga. E com ela, claro, diversos downloads. Aquele álbum com as músicas mais obscuras daquele artista que só você conhece. As fotos (ainda em sua maioria digitalizadas) daquela festa que você nem se lembrava mais, de tão bêbado que tinha ficado. Os vídeos daquelas melhores cenas que você apela nos momentos de solidão. E os 34 GB, que antes pareciam infinitos, se tornam tão finitos quanto o número de problemas de geometria analítica que você acertou na última prova do colegial. Apelamos mais uma vez para os back-ups, desta vez em DVDs de 4 GB, ironicamente os mesmos 4 GB do primeiro disco. Demorados e intermináveis backups de uma hora, aproximadamente.
Sem problemas, com muito dinheiro e esforço, mais uns gigabytes foram adquiridos, e assim como o céu, 74 GB era o limite. Era quase o dobro do espaço, ou seja, seria muito fácil gerir o dobro do espaço, pra quem conseguira até então. Porém ninguém contava com as continuações do Flight Simulator, do The Sims, um novo álbum com aquelas mesmas músicas bizarras remixadas, novas fotos, desta vez digitais, de uma nova festa que você estava mais bêbado ainda. Ainda assim podemos apelar pros backups, agora um pouco menos demorados, algo em torno de meia hora.
Tudo bem, se até o céu pode ser superado, porque não o limite de dados. E com um computador novo, uma nova superação. Não, com certeza não há como encher 300 GB! Agora sim é um bom limite pra se trabalhar, nunca isso tudo será preenchido por aqueles animes que você nunca vai assistir, os jogos que nunca vai jogar, os filmes que ninguém nunca ouviu falar...
E olha só que irônico. Antes mesmo de começar a preencher o espaço, eu já sabia exatamente com o que iria preenchê-lo. E tão logo ele encheu, eu comecei a lembrar de todo o passado, agora até já distante, de como eu me virava com 4 GB. E isso me lembrou um pouco nossa vida. Sempre parece que já vimos tudo que tínhamos pra ver. Que nossas memórias estão cheias de momentos e lembranças que a preenchem completamente. E então o Sol nasce no horizonte e novas e emocionantes memórias são gravadas, após memoráveis momentos da nossa vida. E também podemos fazer nossos backups, com fotos, cartas, bilhetes, lembranças, etc., que mais parecem amuletos da sorte, que procuramos sempre que queremos lembrar os bons momentos que foram registrados.
Hoje tenho um pen drive e, nele, 4 GB de arquivos. Dentre eles alguns bons backups da minha vida, bem como backups do meu computador. E nesta era em que real e digital se confundem, até parece que meu computador também tem bons momentos, que ele deseja lembrar para sempre (ou apagar da memória o quanto antes, para nem sequer lembrar que aquilo aconteceu um dia).
Nossa vida está cada vez mais high-tech? Ou estaria a tecnologia cada vez mais parecida com a vida?