Stream of Consciousness. Era uma típica tarde de sexta. Fazia minha já tradicional caminhada até o banco. Enquanto aguardava o farol fechar, ficava brincando com minha bengala (sem duplo sentido). E lembrei-me do meu primeiro dia de trabalho com ela.
Era uma segunda-feira. Ir ao banco foi trabalhoso. Não porque o dia anterior tinha me exaurido (era o dia pós-Festival), mas porque... Eu iria sair de bengala. Na rua. Sentia uma sensação de fraqueza naquela cena. Meu corpo invencível foi... Vencido. Seria a primeira vez que eu demonstraria fraqueza física. A caminhada foi lenta. Tortuosa. Meus passos desengonçados tentavam se acertar com os da minha nova “perna”. E enquanto caminhava, olhei ao redor, e pensei em tudo que tinha perdido até aquele momento.
As cenas pareciam estar em High Definition. Tudo parecia diferente. Encontrei o que tinha perdido: Tinha passado 25 anos correndo para frente, sem olhar para os lados. E por que o faria? Tudo que via eram borrões... Naquele momento, sentia como se Deus tivesse dito “ok, seu retardado, agora que você fodeu com a sua perna, isso VAI diminuir sua velocidade”. O mundo parecia mais bonito e, pasme, até fazia sentido. Pena que momentos assim não duram...
Era a quarta da mesma semana. Eu já tinha me adaptado a tudo. Já andava à, pelo menos, ¾ da minha velocidade original. Tinha adaptado uma corrida desengonçada, mas funcional. A bengala não significava fraqueza, significava conhecimento e compreensão dos limites próprios. O mundo não fazia sentido de novo. E é assim que eu gosto dele; sem sentido, sem cor. A mensagem que eu entendi então era “ok, seu retardado, você fodeu sua perna; SUPERE!”.
Eu sei, parece pesado, mas é assim que eu fui criado. Eu tenho 25 anos agora. Dez anos atrás, eu olhava para frente (futuro) e não via nada; nunca fui bom em planejar. Só tinha uma certeza: Eu não viveria até os 40 anos. (Problemas subseqüentes de saúde viriam a reforçar essa idéia.) Eu era parte de uma geração cujo lema era “live fast, die young”. Viveria minha vida ao máximo, sem remorso. Dez anos depois, olhei de novo para o futuro. Ainda não vi nada, nem casamento, nem felicidade, nem estabilidade. Nada realmente havia mudado em dez anos. Certeza, só a inevitabilidade da morte. Então, por que me importar? Em dez anos, não havia encontrado a felicidade. Eu estava realmente procurando por ela?
Numa quinta (começo desse mês, acredito), eu estava conversando com a irmã de uma amiga minha. Enquanto conversávamos, pensei nas escolhas que fiz ao longo da vida. Muitos erros, poucos acertos. Eu me arrependo? Não. Primeiro lugar, porque ficar olhando para o passado é perder tempo no presente. Segundo, porque eu vivi o que tinha que viver. Bom ou mau, não importa.
Pense: Se você vive correndo, dá tempo de se arrepender? Se você vive correndo, o que realmente está perdendo? Eu tenho medo de altura (não é uma fobia, though), mas isso nunca me impediu de ir para o alto de prédios e brinquedos do Playcenter que caem. Não sou tão estúpido de achar que nenhum bandido mexeria comigo, mas isso nunca me impediu de sair de noite. Sei que se continuar correndo, ninguém ficará ao meu lado, pois terei ido longe demais... E quantos amigos não deixei para trás? Mas os que são insanos o suficiente de me acompanhar, ainda estarão lá, a perda é mínima, então.
O que quero dizer, é que sou um tanto inconseqüente, eu sei, mas qual a graça de ser “conseqüente”, então? Por que eu perderia tempo observando a vida? Por que agora eu apreciaria a vida? As coisas que faço, faço porque quero. Quem eu sou é uma conseqüência do que eu fiz, e mesmo que eu não tenha orgulho de tudo que realizei até esse momento, não tenho vergonha. Sempre corri, continuarei correndo. Mesmo que o preço seja minha felicidade, amor e tudo mais... Mesmo porque, quem garante que eu os encontraria se não corresse?
Então, o farol abriu. Comecei a andar (mais rápido do que pessoas “normais”), lembrando que minha próxima aula (e primeiro dia na faculdade com a bengala) seria numa terça, depois do feriado... E eu a empunharia com orgulho.
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por PUTZ Sentai
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